Novo Terminal Metropolitano no Centro de Curitiba? A AMEP estuda a substituição do Guadalupe

Fonte: https://www.amep.pr.gov.br/sites/comec/arquivos_restritos/files/documento/2026-06/tr_ce.04.26_desapropriacao.pdf

A AMEP estuda a substituição do GuadalupeUma publicação quase despercebida no site da AMEP (Agência de Assuntos Metropolitanos do Paraná) pode anunciar uma das maiores transformações na mobilidade do Centro da capital paranaense nas últimas décadas. No dia 18 de maio de 2026, a agência publicou um Termo de Referência para a contratação de estudos de desapropriação visando a possível construção de um novo Terminal Metropolitano no coração de Curitiba — em substituição ao histórico Terminal Metropolitano Guadalupe.

O documento passou longe dos holofotes. Mas quem acompanha a mobilidade metropolitana sabe que Termos de Referência desse tipo não surgem do nada. Eles representam etapas concretas de um processo que, quando chega ao ponto de envolver desapropriações, já foi objeto de decisão política prévia. Vale a pena analisar com cuidado o que está em jogo.

O que diz o Termo de Referência?

Segundo o próprio documento, o escopo envolve 13 áreas urbanas que podem ser atingidas na íntegra para a implantação do novo terminal. As quadras estudadas estão localizadas nas imediações do atual Guadalupe:

– Avenida Visconde de Guarapuava × Rua João Negrão × Rua André de Barros × Rua Conselheiro Laurindo — avaliação da quadra inteira;

– Travessa da Lapa × Avenida Visconde de Guarapuava × Rua João Negrão × Rua André de Barros — avaliação de apenas metade da quadra, na frente voltada para a Visconde de Guarapuava.

Os serviços previstos incluem visitas técnicas, coleta de documentos e matrículas de imóveis, laudos de avaliação imobiliária, reuniões com proprietários lindeiros, levantamento topográfico, elaboração de projetos, memoriais descritivos e controle dos processos de desapropriação.

O próprio TR é explícito quanto à abrangência do trabalho:

“O objeto não se limita à elaboração de levantamentos e laudos isolados, mas envolve um conjunto de serviços que asseguram a documentação necessária para a continuação dos serviços desta agência, logo que essa etapa é essencial para (…) o suporte para tomadas de decisão quanto à futura implantação do novo Terminal Metropolitano de Curitiba.”

A estimativa de 13 imóveis atingidos em suas totalidades indica que o projeto contempla desapropriações sem remanescentes — ou seja, a ideia não é recortar lotes, mas sim adquirir quadras completas (ou meias quadras) para viabilizar um empreendimento com dimensões condizentes com a demanda metropolitana.

Por que substituir o Guadalupe?

O Terminal Metropolitano Guadalupe tem uma localização invejável para um equipamento de transporte coletivo: está no Centro histórico de Curitiba, com boa acessibilidade a pé e integração informal com diversas linhas municipais que circulam pela região. Mas suas limitações físicas são conhecidas de longa data.

A desativação do Terminal Guadalupe é algo pleiteado há alguns anos, a fim de criar uma Praça para o Santuário Nossa Senhora do Guadalupe que, atualmente, fica encoberto pelo Terminal. A possível Praça também ajudaria na requalificação urbana, pois a atual área do Terminal Guadalupe é considerada degradada.

O cenário operacional atual: maioria das linhas metropolitanas troncalizadasAntes de imaginar o novo terminal, é preciso entender o que ele terá de abrigar. E a realidade operacional de 2026 é bem diferente do que era há dez ou quinze anos.

As linhas que hoje utilizam o Terminal Guadalupe estão praticamente troncalizadas. A esmagadora maioria das partidas é composta por linhas de maior capacidade com origem em Terminais dos municípios metropolitanos: Quatro Barras, Campina Grande do Sul, Colombo, São José dos Pinhais, Araucária, Campo Largo, Pinhais. As antigas linhas de bairro que transitavam pelo terminal e seguiam para diferentes bairros metropolitanos foram, ao longo dos anos, sendo ajustadas, encurtadas ou extintas. O que sobrou de “linhas de bairro” no Guadalupe é pouco — e tende a diminuir ainda mais com o tempo.

Uma exceção relevante que merece atenção são as linhas de São José dos Pinhais que servem os bairros próximos à BR-277. É possível pensar em alternativas para troncalizar essas linhas num Terminal intermediário, porém os prós e contras precisam ser avaliados.

O desafio mais importante: segurança e atratividade urbana

Há, porém, uma questão que antecede qualquer discussão de engenharia: como tornar um grande terminal no Centro da cidade um lugar que as pessoas queiram usar e que não se torne um ponto de insegurança e degradação urbana?

Não é uma pergunta retórica. O histórico brasileiro de terminais centrais — não apenas em Curitiba, mas em diversas capitais — é marcado por casos de equipamentos que, ao longo do tempo, tornaram-se espaços problemáticos: mal frequentados por moradores de rua e viciados e sensação de abandono que atrai justamente o que se quer evitar.

Como resolver isso?

O futuro projeto precisa pensar em mesclar usos (comércio, serviços, talvez uma espécie de Shopping de maior porte) para garantir a presença e circulação de pessoas, independente dos próprios usuários do Terminal.

Porém, ideias assim precisam ser bem pensadas e todo o contexto geral do Centro da cidade precisa melhorar. A ideia de um shopping é tentadora, por exemplo, mas necessita de estudos sérios.

O que parece claro é que a questão da atratividade e da segurança urbana é o maior desafio do projeto — e precisará ser enfrentada com a mesma seriedade técnica que os aspectos operacionais e estruturais.

O que esperar dos próximos passos?

O Termo de Referência publicado pela AMEP é uma etapa técnica, não uma decisão final. Os estudos de desapropriação produzirão avaliações imobiliárias, documentação fundiária e informações que subsidiarão a tomada de decisão sobre a viabilidade e o formato do novo terminal.

É possível que, ao longo desse processo, o escopo seja ajustado — talvez nem todos os 13 imóveis sejam necessários, ou talvez o projeto evolua para uma configuração diferente da inicialmente imaginada. Mas o fato de que a AMEP chegou ao ponto de contratar estudos de desapropriação indica que há seriedade na intenção.

O Ligeirinho Mobilidade continuará acompanhando o desenvolvimento desse processo. Para um equipamento com esse nível de impacto na mobilidade metropolitana, a transparência e o debate público qualificado são indispensáveis — e nós fazemos parte disso.

Fontes: Termo de Referência publicado pela AMEP em 18 de maio de 2026. Link: https://www.amep.pr.gov.br/sites/comec/arquivos_restritos/files/documento/2026-06/tr_ce.04.26_desapropriacao.pdf

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